O lugar da Estrela sempre foi escolhido para construções de certa categoria . A quando da última edíficação foram encontrados fragmentos de pavimentos romanos e de uma fase posterior, capiteis duplos com os respectivos colunelos (séc. XIII), provavelmente fazendo parte da Galeria de um Palácio que lá existiu e que pertenceu às filhas de D. Sancho I.
Mais tarde, foi aqui erigido (provavelmente no princípio do séc. XVI, pois os contrafortes cilíndricos, que ainda hoje se podem ver, foram construídos durante a reforma Manuelina), o palácio de D. Garcia de Almeida, primeiro reitor da Universidade, chegando a funcionar nele de forma provisória, aulas de algumas faculdades. Consta que terá ardido no princípio da segunda metade do séc. XVI. O portal Manuelino (grande corda marinheira como único elemento construtivo, que se pode ver na igreja contígua ao actual edifício , a ele deve ter pertencido,pois foram encontrados vestígios Manuelinos que são referenciados como tendo pertencido a esse palácio, no entanto, outros autores afirmam-na proveniente da casa dos senhores de Pombeiro da Beira, a familia dos Cunhas.
Depois do incêndio, ali foi construída a casa do Conde de Sta. Cruz, até que em 17 de Janeiro de 1707 ( 2 anos depois da constituição da província dos Capuchos que compreendia a Beira e o Minho), o provincial Fr. Ambrósio de Santo Agostinho, com a licença de D. João V, ali fundou o colégio da Estrela, nas casas que o Conde D. Martinho de Mascarenhas lhe cedera. O colégio seria construído no local dominante do sítio da Estrela, estando compreendido pela antiga porta de Belcouce e pelo cimo da R. das Fangas, sendo o Bispo-Conde D. António de Vasconcelos e Sousa que a 29 de Março de 1715 lançaria a 1ª pedra para a sua construção. dois anos depois celebrar-se ia a 1ª missa na igreja que dele fazia parte e que ainda hoje existe. Esta igreja é de uma só nave, de capela-mor simples, com um abobamento completo em tijolo.
O colégio foi extinto em 1834 e adquirido por particulares, passou por usos diversos, até que a "tradição" se cumpriu e mais uma vez ardeu, funcionando lá nessa altura uma fábrica de massas. A última ocupação conhecida antes da construção existente, foi a de uma pequena mercearia que funcionava nos restos do edifício que ardera.
2. Designação
O edifício é mencionado nos arquivos históricos como a casa Dr. Ângelo da Fonseca. No entanto, devido à actividade nele desenvolvida à bastantes anos, é conhecido como Governo Civil de Coimbra
3. Uso
O uso inicialmente previsto era o de uma habitação unifamiliar. Pouco tempo terá servido este fim, vindo a ser destinado a serviços como sede do Governo Civil de Coimbra. No princípio servia ainda de residência ao Governador.
4. Data
Só se voltam a encontrar referências históricas a este local, quando em Junho de 1923 é noticia o acelerar das obras para o "Palace-Hotel-Estrela", que haviam começado em Maio. Classificado o projecto (do qual terá existido uma aguarela), como um belo trabalho artístico do Arq. Raul Lino, o Hotel teria 90 quartos, várias salas distribuídas por três pisos e um elevador eléctrico que o ligaria à Portagem. Para este projecto o Arq. previa o restauro da torre e dos claustros já existentes. no entanto, à empresa construtora haviam sido feitas duas propostas de compra, uma por um banqueiro e outra (supomos), por parte do futuro comprador, e é aqui que começa a "história" do nosso edifício... Adquirido pelo Dr. Ângelo da Fonseca em 1924, este terá chamado o Arq. Raul Lino, para proceder à alteração do projecto do Hotel, pois pretendia ali fazer a sua residência.
O novo projecto terá ficado pronto no fim do ano seguinte, apesar de já em Maio desse ano terem sido vistas no local grandes quantidades de cantaria. Classificado como um projecto dignificante para tão competente Arq., é descrito como um nobre solar, dos melhores do país, pelas proporções, grandiosidade e magnífica localização. Porém só em 20 de Janeiro de 1927 seria pedida à Câmara Municipal de Coimbra licença para o arrumo de materias de construção perto da obra. A 5 de Abril de 1928, a C.M.C. agradecia ao Dr. Ângelo da Fonseca o terreno cedido por este para o alargamento da Couraça de Lisboa, nesse mesmo ano seria feito o pedido de vistoria ao edifício, a 27 de setembro.
O edifício foi construido sobre a base da antiga torre de Belcouce, que fizera parte da muralha Coimbrã, e dos muros desta, ainda hoje perfeitamente identificáveis. Dois outros elementos, seriam também aproveitados e recuperados, o portal barroco que havia pertencido ao antigo colégio, foi colocado na entrada da pequena capela particular (paredes meias com a igreja do colégio - única construção que dele resta), também seriam recuperados os claustros , ou o que deles escapou ao incêndio.
Posteriormente a quando da instalação do Governo Civil no edifício, seriam feitas (por diversas vezes), pequenas adaptações / correcções internas, sem que o edifício tivesse perdido a traça original. O mesmo não se pode dizer do exterior que apesar de cuidado e sem alterações, tem "pequenos" pormenores que deveriam ser revistos, falamos nomeadamente, das antenas e dos aparelhos de ar condicionado.
5. Protecção
É pena que o P.D.M. da cidade não preveja qualquer protecção especial para este edifício, tal facto dever-se-à, provavelmente, à sua "recente" idade. De qualquer forma e não sendo um imóvel classificado, situa-se dentro da zona histórica e monumental de Coimbra, o que já lhe confere um estatuto especial. Qualquer intervenção terá que ser feita por arquitectos e é de acreditar que ninguém terá coragem para o adulterar.